Capítulo #1: Daniel

 

Em uma grande pradaria, havia uma enorme e solitária árvore.

O tronco dessa árvore era largo o suficiente para esconder um pequeno grupo de homens, se fosse oco. Dezenas de galhos de tamanhos diversos cresciam a partir da árvore em todas as direções, fazendo com que a árvore alcançasse uma altura de trezentos metros em seu ponto mais alto. Cada galho de árvore possuía centenas de folhas em sua volta. Sua folhagem era densa, com cores que variavam entre laranja, vermelho e um marrom escuro. Em seu pé, uma série de raízes invasivas se alastravam por metros antes de afundarem em um solo coberto de folhas secas.

Dentro da densa folhagem, em um galho pequeno que media meio metro de ponta a ponta, sentava a figura de um garoto. Seu corpo era magro, beirando a desnutrição... Seu cabelo negro grudava em seu rosto suado e balançava nos lados de sua cabeça, enquanto ele se inclinava para frente na tentativa de pegar algo com seus braços. Suas roupas um pouco pequenas se prendiam firmemente ao seu corpo suado como uma segunda pele.

Gemidos e murmúrios romperam o som de folhas balançando, enquanto um par de longos e finos dedos se esticavam no ar, a centímetros de distância de uma estranha fruta redonda.

— Vamos lá... Droga! — grunhia o adolescente, enquanto gotas de suor escorriam por seu nariz e sua pele apresentava os mais diversos tons de vermelhos.

Por um longo minuto, o jovem tentou de todas as maneiras alcançar a fruta, mas, devido ao tamanho massivo da árvore, nenhum outro galho além do dele estava mais perto da fruta e, infelizmente, o galho em que a fruta pendia era fino demais para suportar seu peso.

Era importante entender que essa não era uma simples fruta e essa não era uma simples árvore.

Os habitantes de Phyrri nomearam essa árvore de “A Árvore do Provimento”, nome originado da lenda que a rodeava. Essa lenda afirmava que quando uma pessoa digna e necessitada se aproximava dela, a árvore produziria um fruto de presente para essa pessoa.

O presente era uma fruta do tamanho de uma toranja. Sua textura era suave e brilhante, porém, a cor era estranha. Não importava de qual ângulo fosse olhada, o centro sempre pareceria vermelho, enquanto a parte externa era amarela com um estranho brilho. Era como se alguém sempre a estivesse iluminando por trás.

De acordo com os mais velhos, essa fruta tinha propriedades mágicas, e mesmo que não pudessem confirmar seus efeitos, já que ninguém tinha conseguido uma em centenas de anos, ainda se lembravam das histórias de seus ancestrais melhor do que a geração mais nova.

Essa história do passado tornou a cidade de Phyrri famosa por todo o reino de Karalis, bem como sua renomada árvore.

Muitos jovens costumavam viajar através de todo o reino para tentar a sorte e ganhar a bênção da Árvore do Provimento. Infelizmente, a árvore causou mais desapontamento do que qualquer outra coisa para aqueles que vinham visitá-la... e, agora, no presente, os poderes da árvore eram considerados apenas uma lenda, ou um poder natural perdido no tempo.

Entretanto, isso nunca impediu os gananciosos que ouviram essa história de tentar se aproximar da árvore, ainda que nenhum deles tenha tido sucesso. O motivo era que, para conseguir a aprovação da árvore e ganhar um de seus presentes, as intenções da pessoa seriam julgadas pela árvore. Infelizmente, ninguém mais lembrava desse detalhe.

No dia em que o jovem se aproximou da árvore, não havia intenções de ganhar o presente da árvore. Ele já tinha, é claro, escutado as lendas “da Árvore do Provimento”, então após perceber a fruta balançando em um dos galhos, ele decidiu pegá-la e usar para quitar uma dívida. Uma dívida que sua falecida mãe deixou quando morreu, o dia em que ele completou dez anos.

Essa dívida o forçava a pagar dez moedas de prata no final de cada mês, a fim de manter sua liberdade, bem como a de sua irmã.

Naturalmente, devido a sua idade e incapacidade para trabalhar, acabou ganhando a maior parte de seu dinheiro roubando carteiras de homens e mulheres ricas que eram tolas demais para contratá-lo como um guia ou um carregador de bagagem enquanto se moviam através da cidade.

A cidade era grande e ele sempre foi ágil e rápido o suficiente para escapar toda vez que era pego. Infelizmente, sua sorte acabou quando roubou a pessoa errada.

As regras não ditas entre os batedores de carteiras eram poucas.

“Nunca roube um Capitão da Guarda, nunca pegue mais do que o necessário de uma única pessoa e, por último, nunca seja pego.”

Naquele dia fatídico, ele tinha conseguido quebrar duas das três regras em um minuto.

A razão para nunca roubar um Capitão da Guarda era simples:  Para se tornar um Capitão da Guarda, a pessoa deveria alcançar o rank 4 no cultivo marcial, que daria a eles sentidos sobre-humanos sobre seus corpos. A menor mudança no peso do que estava carregando, seria mais do que suficiente para alertar um cultivador marcial de rank 4. Perceptivelmente, o alvo desse jovem naquele dia, era de fato, o Capitão da Guarda de Algro, uma cidade a semanas de distância de Phyrri.

Além disso, o Capitão estava carregando bens valiosos de uma cidade a outra.

Por sorte, muitos dos soldados e guardas se concentravam mais em sua força e resistência durante seus treinos, e esse Capitão não era exceção. Então, graças a sua agilidade, conseguiu escapar. Mas não antes do Capitão da Guarda ter dado uma boa olhada em seu rosto e relatado aos guardas locais.

Por semanas, ele foi forçado a perambular nas ruas com uma camada extra de precaução toda vez que ele via uma armadura brilhante por perto, fazendo com que seu ganho não fosse o suficiente para pagar a dívida mensal.

A pessoa para quem ele devia dinheiro era brutal... Sua mãe, sem escolha após a morte de seu marido, teve que pedir um empréstimo a um conhecido dele, que ela desconhecia.

O homem acabou sendo o dono de um hotel sombrio que lidava com drogas, prostituição e apostas. Tendo quase perdido um dos pagamentos, ela aprendeu que, caso não pagasse, ela e suas crianças acabariam se tornando escravos. Isso a levou a trabalhar até a morte, e a dívida ser herdada por seu filho e filha.

A razão pela qual o jovem acabou nessa pradaria não era para tentar a sorte e obter a fruta dessa lendária árvore. O motivo real foi que ele acabou sendo reconhecido por um dos guardas patrulhando o exterior das paredes da cidade, onde ele tinha o hábito de negociar com os mercantes estrangeiros para fazê-los contratá-lo como um guia turístico.

Ele acabou sendo perseguido até a floresta e continuou correndo por horas enquanto pensava sobre a punição de ser pego roubando, a qual seria ser forçado a trabalhar nas minas como escravo pelo resto de sua vida.

E esse era o exato destino que o aguardava caso não pagasse toda a sua dívida.

O proprietário do hotel, desde o começo, tinha certeza de que os dois órfãos nunca seriam capazes de liquidar toda a dívida, então já tinha a intenção de vendê-lo para as minas e forçar sua irmã a trabalhar no hotel como uma prostituta ou a vender como escrava.

O simples pensamento de ver sua irmã se transformando em uma escrava o fazia suar de ansiedade. O jovem apenas parou de correr após sair da floresta e ter certeza de que mais ninguém o seguia.

Ele tinha chegado em um imenso campo de grama, com uma árvore colocada bem no meio, alta como uma pequena montanha.

Na base dessa árvore, sentava-se um velho.

Esse velho estava sentado no chão, entre duas grandes raízes que pareciam se dividir para permitir que ele se sentasse. Ele tinha uma grossa barba branca, como alguém que não havia se barbeado por anos, e seu cabelo era longo o suficiente para encostar no começo de seu pescoço. Ele vestia uma simples roupa marrom, aquelas que alguém poderia facilmente imaginar um eremita usando enquanto perambulava pela floresta. Ainda assim, se alguém pudesse olhar o homem bem de perto, perceberia que sua roupa estava impecavelmente limpa, e a única parte suja eram seus pés descalços.

Um jovem garoto estava cambaleando de exaustão em direção a árvore.

Quando os olhos do velho pousaram no jovem, uma leve luz dourada escura brilhou em seus olhos por um momento, antes de desaparecer. E então, um sorriso gentil apareceu em seu rosto enrugado.

O jovem se aproximou da árvore e imediatamente notou o velho sentado perto das raízes. Depois de se sentar na grama fresca pela sombra da árvore, e acalmar sua respiração apressada após alguns minutos, levantou-se e se aproximou do velho.

— Velho, você precisa de ajuda para levantar? — perguntou o jovem.

O sorriso gentil do velho cresceu ainda mais como se ele estivesse prestes a rir das palavras do jovem.

— Não, jovem garoto... você precisa de ajuda? — disse o velho em uma voz profunda, que ressoavam no fundo da mente do jovem, o deixando atordoado por um momento.

— S-Sim... — respondeu o jovem, levemente assustado, e então, perguntou com uma voz embaraçada —Eu não sei onde estou, você sabe como eu posso voltar para Phyrri?

O olhar no rosto do jovem era a de esperança, como se sua mente ainda não estivesse totalmente confortável. Ele acabara de ser perseguido por guardas por quem sabe quantos quilômetros, e acabou se perdendo dentro da floresta. Mas, o mais importante, ele tinha que voltar para Phyrri em breve e encontrar uma maneira de pagar sua dívida, já que o mês estava quase acabando e seu tempo estava acabando.

—HA! — exclamou o velho — como você vai ajudar os outros se nem você sabe onde está? HA HA HA! — a risada do velho era doce, como a de um avô divertido pelos atos bobos de seus netos. Ainda assim, a voz poderosa do velho fez com que o jovem mais uma vez se sentisse assustado.

— ...Você sabe onde nós estamos ou não? — perguntou o garoto, levemente irritado pela risada do velho.

O velho parou de rir e começou a acariciar sua barba. Ele parecia estar pensando em uma resposta. — Eu não tenho certeza... eu tenho estado aqui por um longo tempo, sabe. — disse.

O jovem ficou curioso sobre o que o velho disse, já que não conseguia ver nenhuma bagagem em volta. Ele estava começando a se perguntar se o velho estava falando sério ou apenas brincando com ele.

O velho parecia com um eremita e era bem conhecido que eremitas eram poderosos magos, capazes de cultivar o espírito enquanto se comunicavam com a mana das florestas, e capazes de invocar comida e outras necessidades, enquanto o jovem, depois de tudo, era apenas um batedor de carteira. Ele mal conseguia descobrir o cultivo que os guardas, soldados e artistas marciais praticavam. Mana, invocação e cultivo espiritual eram coisas que ele nunca havia encontrado em sua curta vida.

Depois de pensar sobre as palavras do velho por um momento, o jovem se sentou na frente dele. Quando se sentou, virou o corpo paro o lado a fim de alcançar o pequeno saco de couro que pendia em seu pulso. Ele então retirou um pedaço de pão, dividiu pela metade, e ofereceu ao velho.

Quando o velho viu isso, seu sorriso ficou caloroso mais uma vez, antes de repentinamente desaparecer. Ele então esticou os braços em direção ao pão na mão do jovem e o pegou.

O jovem começou a comer a metade restante do pão. Era apenas um pedaço de pão, mas ele estava alegremente mordendo enquanto olhava para a grande árvore, que providenciava uma sombra para ele o velho. Seu olhar era de surpresa, falhando em perceber que o velho não estava comendo.

— Seu nome?... — perguntou o velho ao jovem surpreso.

Sem tirar os olhos da árvore, o jovem respondeu: — Daniel.

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